Depoimentos27 de agosto de 2026~7 min de leitura

Pilates em casal: o caso de Roberto e Duda, que treinam juntos

Duda levou Roberto ao Pilates para aliviar as dores dele e acabou cuidando do próprio corpo. Hoje treinam juntos 2x por semana. O que a ciência mostra.

"Quem sentia mais as dores era o Roberto. Quem trouxe ele foi a Duda"

Roberto e Duda são casados e são alunos da Soliê. Chegaram ao estúdio como muita gente chega: atrás de alívio para dor.

Mas tem um detalhe na história deles, e é esse detalhe que faz o caso valer um post.

Quem sentia mais dor era o Roberto. Quem tomou a iniciativa de procurar o Pilates foi a Duda. E ela não parou no papel de quem incentiva. Aproveitou a mesma decisão para cuidar do próprio condicionamento físico e começou a treinar ao lado dele.

Hoje os dois vêm duas vezes por semana, na mesma aula, com exercícios diferentes, montados para as necessidades de cada um.

O acompanhante que vira aluno

Existe um roteiro comum em quem chega ao estúdio pela primeira vez acompanhado. A pessoa que sente dor faz a aula. A outra senta, assiste, elogia no fim e vai embora.

Duda fez diferente. Ela entrou no aparelho.

Parece uma escolha só de logística, aproveitar que já estava ali. Mas é exatamente aqui que a evidência tem algo interessante a dizer, e não é sobre o Roberto. É sobre ela.

O que a ciência mostra sobre casais

O estudo mais direto sobre isso acompanhou 3.722 casais, casados ou morando juntos, dentro do English Longitudinal Study of Ageing, uma coorte populacional britânica de adultos com 50 anos ou mais. Os resultados foram publicados em 2015 no JAMA Internal Medicine [1].

A pergunta era simples: quando uma pessoa sedentária passa a se exercitar, o que aconteceu com o parceiro dela?

Entre pessoas inativas, ter um parceiro que também era inativo e passou a se exercitar foi associado a uma chance cerca de 5 vezes maior de começar a se exercitar (OR 5,28 a 5,36) [1].

O número sozinho já é grande. Mas o achado que importa está na comparação.

Ter um parceiro que sempre foi ativo também ajudou, só que bem menos: cerca de 2,8 vezes mais chance (OR 2,75 a 2,92) [1].

Em proporções absolutas: 67% dos homens e 66% das mulheres cujo parceiro deixou de ser sedentário passaram também a se exercitar. Quando o parceiro já era ativo desde sempre, a proporção caiu para 54% e 52% [1].

Traduzindo o que isso significa na prática: o parceiro que começa junto com você puxa mais do que o parceiro que já treinava há anos. Não é o exemplo pronto que move. É a decisão compartilhada.

E foi isso que aconteceu na história do Roberto e da Duda. Ela não ficou de fora torcendo. Ela começou.

O que a Duda ganhou sem estar procurando

Duda entrou pela dor do Roberto. O ganho dela veio de lado, e não é pequeno.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 na Healthcare reuniu 20 ensaios clínicos randomizados, com 930 participantes de 60 anos ou mais, idade média entre 63 e 79 anos, avaliando Pilates e equilíbrio [2].

O Pilates apresentou efeito moderado sobre o equilíbrio (tamanho de efeito 0,65, p < 0,001), com efeito maior sobre o equilíbrio dinâmico (0,73) do que sobre o estático (0,56), e baixa heterogeneidade entre os estudos [2].

Equilíbrio dinâmico é o que você usa para virar de lado sem se desorganizar, desviar de alguém na calçada, descer um degrau irregular. É o que separa um tropeço de uma queda.

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E aqui vale ser direto sobre o motivo de isso interessar tanto: depois dos 60, queda não é um susto, é um evento com consequência. Trabalhar equilíbrio antes de ter problema é prevenção, não tratamento.

Duda não chegou reclamando de equilíbrio. Ninguém chega. É um ganho silencioso, que só aparece quando você precisa dele.

Treinar juntos não é treinar igual

Essa é a confusão mais comum quando falamos de aula em casal, e é importante desfazer.

Roberto e Duda dividem o horário, o ambiente e a instrutora. Não dividem o treino.

Os corpos são diferentes. As queixas são diferentes. O ponto de partida é diferente. Roberto chegou com mais dor, então o plano dele começou por onde ele conseguia. Duda chegou sem dor incapacitante e com outro objetivo, condicionamento, então o plano dela seguiu outro caminho.

Na prática da aula isso aparece o tempo todo:

  • Cargas diferentes nas molas, mesmo quando o exercício tem o mesmo nome.
  • Amplitudes diferentes, respeitando o que cada articulação entrega hoje.
  • Progressões em ritmos diferentes, porque um corpo pode estar pronto para subir a dificuldade e o outro não.
  • Exercícios que só um dos dois faz, quando a necessidade é específica.

Na Soliê são no máximo dois alunos por instrutora. Um casal ocupa a turma inteira, e é justamente por isso que dá para individualizar sem que ninguém fique esperando a vez.

A honestidade que a evidência exige

Seria fácil terminar aqui dizendo que treinar em casal é comprovadamente superior. Não é isso que a literatura mostra, e vale dizer com clareza.

Uma revisão sistemática publicada em 2017 no British Journal of Health Psychology analisou 14 estudos de intervenções de mudança de comportamento em saúde voltadas para casais. Quando comparadas a cuidado usual, as intervenções em casal foram mais efetivas em 4 de 7 ensaios. Já quando comparadas a intervenções individuais, o resultado foi inconclusivo, com dois estudos favorecendo o formato em casal e dois sem diferença. Os autores apontaram que apenas um dos estudos tratava especificamente de atividade física e pediram pesquisas mais rigorosas [3].

Ou seja: a evidência não autoriza dizer que a aula em casal rende mais resultado clínico do que a aula individual bem feita.

O que ela mostra, e o achado do ELSA é forte nisso, é que o comportamento do parceiro pesa muito na decisão de começar e de continuar. O casal não muda a fisiologia do exercício. Muda a probabilidade de você aparecer na aula de terça-feira quando bate a preguiça.

E aderência é o fator que decide quase tudo. O melhor programa de exercícios é o que a pessoa faz por anos, não o que ela faz por seis semanas.

Cada corpo tem o seu ponto de partida

Um lembrete necessário. Dor persistente merece avaliação médica antes de qualquer programa de exercício, principalmente quando vem com perda de força, formigamento, dormência ou piora progressiva. O Pilates entra depois do diagnóstico, conduzido por profissional habilitado.

E o fato de vocês serem um casal não significa que vão fazer o mesmo treino. Cada um passa por avaliação própria e recebe um plano próprio. Vocês compartilham o horário, não o diagnóstico.

Pilates na Soliê

Na Soliê Pilates, no Água Verde em Curitiba, as turmas têm no máximo dois alunos por instrutora. Um casal fecha a aula, com atenção integral e correção na hora, e cada um com o seu plano.

Roberto veio pela dor. Duda veio pelo Roberto. Hoje os dois vêm por eles mesmos, duas vezes por semana.

Treinar ao lado de alguém especial deixa de ser uma obrigação na agenda e vira um compromisso que vocês dois têm motivo para manter.

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Referências

  1. Jackson SE, Steptoe A, Wardle J. The influence of partner's behavior on health behavior change: the English Longitudinal Study of Ageing. JAMA Internal Medicine, v. 175, n. 3, p. 385-392, 2015. DOI: 10.1001/jamainternmed.2014.7554
  2. Sampaio T, Encarnação S, Santos O, Narciso D, Oliveira JP, Teixeira JE, Forte P, Morais JE, Vasques C, Monteiro AM. The Effectiveness of Pilates Training Interventions on Older Adults' Balance: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Healthcare, v. 11, n. 23, art. 3083, 2023. DOI: 10.3390/healthcare11233083
  3. Arden-Close E, McGrath N. Health behaviour change interventions for couples: A systematic review. British Journal of Health Psychology, v. 22, n. 2, p. 215-237, 2017. DOI: 10.1111/bjhp.12227
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