Pilates na Gestação31 de agosto de 2026~9 min de leitura

Gestante pode fazer abdominal? O problema não é o que te contaram

Abdominal tradicional na gravidez: não. Fortalecer o core: sim, e é importante. Veja o que a ciência mostra sobre diástase, flexão de tronco e como treinar com segurança.

"Posso continuar fazendo abdominal?"

É uma das primeiras perguntas que a gente escuta quando uma aluna descobre que está grávida. Quem já treinava quer saber o que continua valendo. Quem nunca treinou ouviu de alguém que grávida não pode contrair a barriga, e chega achando que o abdômen virou zona proibida por nove meses.

As duas leituras erram o alvo. Abdominal tradicional: não. Fortalecer o core: sim, e é importante. A diferença entre essas duas coisas muda tudo na gestação, e ela não é a que costuma circular por aí.

O que acontece com o abdômen na gestação

À medida que o útero cresce, os dois feixes do músculo reto abdominal se afastam da linha central pra dar espaço ao bebê. Esse afastamento tem nome: diástase abdominal. O tecido que fica no meio, esticado entre um lado e o outro, é a linha alba.

Ilustração comparando um abdômen com os músculos retos abdominais juntos e outro com diástase abdominal, mostrando o afastamento na linha alba ao redor do umbigo

E aqui vem a primeira informação que costuma surpreender: isso é esperado. Um estudo português acompanhou 84 gestantes de primeira viagem com ultrassom, da reta final da gravidez até seis meses depois do parto. Na semana 35 de gestação, 100% delas tinham diástase. Aos seis meses de pós-parto, esse número tinha caído pra 39% [1].

Ou seja: diástase na gestação não é sinal de que alguma coisa deu errado. É o que acontece com toda barriga que cresce.

A diástase não é o vilão que te vendem

O mesmo estudo mediu uma coisa que quase ninguém menciona: as mulheres que ainda tinham diástase aos seis meses de pós-parto não relatavam mais dor lombopélvica do que as que não tinham [1].

Isso desmonta boa parte do discurso de "fechar a diástase a qualquer custo". A distância entre os retos, isolada, não é um bom indicador de dor nem de função.

O que importa mais é outra coisa: a linha alba não é só um espaço vazio entre dois músculos. Ela é o tecido que transmite força de um lado do abdômen pro outro. O problema de uma parede abdominal mal treinada não é o tamanho do vão, é o vão trabalhar frouxo.

Então por que evitar o abdominal tradicional?

Aqui é onde a explicação popular escorrega. A frase que todo mundo repete é "abdominal abre a diástase". A evidência direta diz o contrário.

O mesmo grupo de pesquisadores mediu, por ultrassom, o que acontece com a distância entre os retos durante o exercício. O resultado: o abdominal (crunch) estreitou a distância em todos os pontos medidos e em todos os momentos avaliados, enquanto o exercício de ativação profunda do transverso teve efeito oposto, alargando levemente [2].

Se o critério fosse só "distância entre os retos", o abdominal tradicional sairia como vencedor. Não é o critério certo.

Um estudo publicado em 2016 no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy olhou pra qualidade do tecido, não só pra distância. Comparando 26 mulheres com diástase e 17 sem, os autores viram que no abdominal feito de forma automática a distância entre os retos diminui, mas a linha alba se deforma mais, ela afunda em vez de sustentar. Quando as participantes ativavam o transverso do abdômen antes de subir, a distância estreitava menos, só que com menos deformação da linha alba [3].

Traduzindo: o abdominal tradicional puxa os dois lados um pro outro sem dar sustentação ao tecido do meio. É como apertar as pontas de um lençol e deixar a barriga do pano solta. Na gestação, com esse tecido já esticado ao máximo, é justamente o cenário que a gente não quer treinar.

Some a isso o mais óbvio: a flexão de tronco repetida soma pressão a uma parede abdominal já distendida. Não é catástrofe, é só uma escolha ruim de exercício quando existem dez opções melhores pro mesmo objetivo.

E a posição deitada de barriga pra cima?

Essa é a outra parte da conversa, e ela merece honestidade.

A partir do segundo trimestre, o peso do útero em decúbito dorsal prolongado pode comprimir a veia cava e reduzir o retorno venoso. É por isso que abdominal tradicional, que é feito exatamente nessa posição, vai perdendo espaço conforme a barriga cresce.

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Agora, a recomendação oficial é mais nuançada do que o "nunca deite de costas" que se ouve em qualquer lugar. O Guideline Canadense de Atividade Física na Gestação trata o tema assim: gestantes que sentem tontura, náusea ou mal-estar ao se exercitar deitadas de costas devem modificar a posição. E classifica isso como recomendação fraca, com evidência de qualidade muito baixa, baseada principalmente em opinião de especialistas [4].

Ou seja, não é uma proibição absoluta. É uma orientação de bom senso que se guia pelos sintomas da gestante, não pelo cronômetro. Na prática do estúdio, a gente resolve isso do jeito mais simples: existem posições melhores pra fazer o mesmo trabalho, então a gente usa essas.

O que entra no lugar

Tirar o abdominal tradicional não significa parar de treinar o core. O mesmo guideline canadense recomenda, com evidência de alta qualidade, que gestantes façam uma combinação de exercícios aeróbicos e de treinamento resistido pra obter maiores benefícios [4]. Fortalecer não é o que se evita na gestação, é o que se busca.

O que muda é o formato:

  • Respiração diafragmática. É ela que organiza a pressão dentro do abdômen. Sem isso, qualquer exercício de core vira empurrão pra fora ou pra baixo.
  • Ativação do transverso do abdômen. O músculo mais profundo da parede abdominal, o que funciona como cinta. É ele que dá sustentação à linha alba, como o estudo de 2016 mostrou [3].
  • Assoalho pélvico. Trabalhado junto com a respiração e o transverso, não como contração isolada.
  • Estabilização em posições seguras. Quatro apoios, sentada, em pé, decúbito lateral. Todas permitem carregar o core sem deitar de costas e sem flexionar o tronco.

Continua sendo trabalho de core. Só que sem sobrecarregar a linha alba.

O assoalho pélvico é a parte que quase ninguém treina

Vale abrir um parêntese aqui, porque esse é o grupo muscular que mais se beneficia e menos recebe atenção.

O treinamento do assoalho pélvico na gestação está associado a uma redução de cerca de 50% na incontinência urinária durante a gravidez e de 35% no pós-parto [4]. Uma revisão sistemática Cochrane de 2020, que reuniu os ensaios clínicos sobre o tema, concluiu que o treino estruturado do assoalho pélvico durante o pré-natal previne o surgimento de incontinência urinária no fim da gestação e nos primeiros meses depois do parto em mulheres continentes [5].

O detalhe que os dois documentos fazem questão de registrar: o benefício depende de instrução na técnica correta. Contrair o glúteo achando que está contraindo o assoalho pélvico é mais comum do que parece, e não produz resultado nenhum.

E o Pilates, especificamente?

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2023 na Revista da Associação Médica Brasileira analisou ensaios clínicos randomizados sobre Pilates na gestação e encontrou redução da intensidade da dor, com benefícios em estabilização lombopélvica e qualidade de vida [6].

Faz sentido, porque o método trabalha exatamente as três estruturas que a gravidez sobrecarrega: coluna lombar, assoalho pélvico e parede abdominal. Se você quiser se aprofundar, a gente já escreveu sobre a base científica do Pilates na gestação e sobre três exercícios pra dor lombar e no cóccix na gravidez.

Cada gestante é única

Nada disso substitui avaliação individual. Antes de começar, a gestante precisa da liberação do obstetra, e algumas situações exigem cautela adicional ou contraindicam a prática: sangramento ativo, placenta prévia, pré-eclâmpsia, risco de parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino.

Fora isso, a regra é acompanhar o corpo. O que servia na semana 14 pode não servir na semana 32. Mobilidade, amplitude, equilíbrio e tolerância a cada posição mudam mês a mês, e o plano precisa mudar junto.

Trabalhar core e assoalho pélvico na gestação repercute na postura, na dor lombar, no parto e no pós-parto. É uma das poucas coisas que rendem em quatro frentes ao mesmo tempo.

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Na Soliê, no Água Verde, são no máximo 2 alunas por instrutora. Isso permite avaliar em que semana você está, o que o seu corpo aguenta hoje e qual é a posição que funciona pra você, com correção em tempo real enquanto você aprende a ativar o que precisa ser ativado.

Você não precisa parar de treinar a barriga na gravidez. Precisa parar de treinar do jeito errado.


Referências

  1. Mota PGF, Pascoal AGBA, Carita AIAD, Bø K. Prevalence and risk factors of diastasis recti abdominis from late pregnancy to 6 months postpartum, and relationship with lumbo-pelvic pain. Manual Therapy, v. 20, n. 1, p. 200-205, 2015. DOI: 10.1016/j.math.2014.09.002
  2. Mota P, Pascoal AG, Carita AI, Bø K. The immediate effects on inter-rectus distance of abdominal crunch and drawing-in exercises during pregnancy and the postpartum period. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, v. 45, n. 10, p. 781-788, 2015. DOI: 10.2519/jospt.2015.5459
  3. Lee D, Hodges PW. Behavior of the linea alba during a curl-up task in diastasis rectus abdominis: an observational study. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, v. 46, n. 7, p. 580-589, 2016. DOI: 10.2519/jospt.2016.6536
  4. Mottola MF, Davenport MH, Ruchat SM, et al. 2019 Canadian guideline for physical activity throughout pregnancy. British Journal of Sports Medicine, v. 52, n. 21, p. 1339-1346, 2018. DOI: 10.1136/bjsports-2018-100056
  5. Woodley SJ, Lawrenson P, Boyle R, Cody JD, Mørkved S, Kernohan A, Hay-Smith EJC. Pelvic floor muscle training for preventing and treating urinary and faecal incontinence in antenatal and postnatal women. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 5, CD007471, 2020. DOI: 10.1002/14651858.CD007471.pub4
  6. Peixoto CS, de Oliveira Melo A, Ladeira CR, et al. The effect of Pilates on pain during pregnancy and labor: a systematic review and meta-analysis. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 69, n. 10, e20230441, 2023. DOI: 10.1590/1806-9282.20230441
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